A Imaginação Grávida
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Alberto Camus comenta sabiamente: “O homem é a única criatura que se recusa a ser o que ela é”.
Se não, vejamos os exemplos que vem da própria natureza? “A vespa caçadora sai em busca de uma aranha, luta com ela, pica-a, paralisa-a, arrastando-a então para seu ninho. Ali deposita seus ovos e morre. Tempos depois, as larvas nascerão e se alimentarão da carne fresca da aranha imóvel. Crescerão e sem haver tomado lições ou frequentado escolas, um dia ouvirão a voz silenciosa da sabedoria que habita seus corpos há milhares de anos: chegou a hora, é necessário buscar uma aranha”.
Os pintassilvos cantam hoje como cantavam no passado. As colmeias das abelhas, o joão-de-barro, não sei de alteração alguma para melhor ou para pior que tenham introduzido no plano de suas casas e tem sido assim há centenas de milhares de anos.
Como são diferentes as coisas para nós, os homens. Tomemos uma criança recém-nascida. Do ponto de vista genético, ela já se encontra totalmente determinada: cor da pele, dos olhos, tipo de sangue, sexo. Mas como será ela quando adulta?
O mundo humano, que é feito com trabalho e amor, é uma página em branco na sabedoria que nossos corpos herdam de nossos antepassados. O fato é que os homens se recusam a ser aquilo que os assemelham aos outros animais, o passado lhes propunha, tornando-se inventores de mundos. E plantaram jardins, fizeram choupanas, fizeram poemas, transformaram seus corpos, cobriram de tintas, metais, marcas e tecidos, inventaram bandeiras, construíram altares, enterraram seus mortos e os prepararam para viajar e, na sua ausência, entoaram lamentos pelos dias e pelas noites.
Minha pergunta é: por que razão os homens fizeram tudo isso? Onde estava a flauta antes de ser inventada? E o jardim e as danças? E os quadros? Ausentes. Inexistentes. Nenhum conhecimento poderia jamais arrancá-los da natureza. Foi necessário que a imaginação ficasse grávida para que o mundo da cultura nascesse.
Os homens não vivem apenas só de pão, vivem também de seus símbolos, de suas invenções, de seus sonhos e para muitos isso é que dá sentido a suas vidas.
É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre isso?
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Artigo veiculado na Rádio Som Maior Premium no dia 10/08/2011 e publicado no Jornal A Tribuna no dia 11/08/2011